Nem todos os pregos precisam de um martelo

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Não viajo pelo mundo para conhecer lugares. Não caminho pelas ruas de cidades desconhecidas procurando monumentos. Também não tenho tanto interesse por tendências e estilos. Minha curiosidade é sempre voltada para as pessoas. Delas derivam todas as outras coisas.

Nunca fui do tipo que se enturma fácil. Tenho um pouco de vergonha de conversar com quem não conheço. Atitude receosa que tem se agravado com a idade, para desespero da minha esposa. Ela sim ama conversar. Eu, por outro lado, apenas observo sem julgamentos e aprendo.

Sempre fui curioso. E quando estou fora de casa, minha atenção é direcionada a entender os diferentes sabores, odores e cores que constroem máquinas humanas tão diferentes. Complexas em sua individualidade e na forma de enxergar o mundo. Um punhado de restos de estrelas mortas que, agrupadas, adquirem consciência. A mágica da cosmologia não está no universo além do nosso planeta, mas nas criações que estão dentro de cada um de nós.

Esse é o estado de espírito que eu fico quando descubro um lugar novo.

E foi com esse coração aberto que cheguei em Tóquio.

Existe um ditado japonês que diz: “Se você enxerga um prego, martele ele.” Em outras palavras, as diferenças não são bem-vindas em uma sociedade vigiada, hierárquica e respeitosa de suas tradições. A individualidade deve ceder espaço ao bem social, mesmo que isso seja contrário a sua natureza. Uma visão muito diferente do que eu defendo e acredito. Mas não posso negar que esse aspecto da sociedade japonesa cria condições únicas para o florescimento de pessoas. De um lado, um grupo que presa e segue a conduta estabelecida. De outro, quem aceita e expressa suas diferenças. Uma sopa contraditória interessante que ainda é temperada com muitos estrangeiros. Todos formam essa sociedade não homogênea que caracteriza Tóquio.

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Não faz muito que o Japão abriu seus olhos para o mundo (sem intenção no trocadilho). Foi apenas na dinastia Meiji que os costumes ocidentais impulsionaram a industrialização e a transformação do Japão feudal em uma potência econômica. Pouco mais de 150 anos. Não é muito quando pensamos em história.

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Assim, eu deveria agradecer ao imperador Mutsuhito (nome de batismo de Meiji) pelas oportunidades que ele me deu aceitando os chamados o-yatoi gaikokujin. Especialistas não japoneses contratados em várias áreas do conhecimento. Graças a essa abertura, que começou em 1867, eu tive a chance de conhecer um bar escondido e cheio de estrangeirismos. Chamado de JBS, no segundo andar de um prédio discreto, não muito longe da famosa esquina de Shibuya. Um lugar incrível, onde o mais interessante não são os mais de 10.000 discos de Jazz. Ou a arquitetura meticulosamente trabalhada e simples em madeira clara vintage. Também não foi a estrela da noite o impecável whisky Yamazaki, que para muitos é o melhor do mundo. A grande e incrível joia do lugar é seu dono.

Um senhor de 60 e poucos anos, japonês, especialista em música negra americana. Tomamos o bar de assalto e, literalmente, viramos ele de cabeça para baixo, dançando. O público local, não acostumado com aquela agitação, abandonou o lugar. Mas quem ficou abraçou nosso espírito. Lá conhecemos Joana, editora de uma das revistas alternativas mais legais, a Champ Magazine. Ela nos convidou para um café, no dia seguinte, em um outro lugar, não muito longe dali, para saber mais sobre aquela galera engraçada que não parava de dançar.

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Acordei e encontrei meus amigos para uma caminhada na região do Harujuku, ainda em Shibuya, antes de vermos Joana. E foi caminhando pelas ruas estreitas desse bairro que consegui observar muito sobre a forma com que os japoneses expressam sua individualidade. Mas antes de me aprofundar, é incrível e impossível não comentar que a região do Harujuku fica à sombra de um santuário edificado em homenagem a Meiji. O mesmo imperador que abriu o Japão. Coincidência ou destino?

Passeando pela região, logo na saída da estação, próxima da rua Takeshita, você encontra, aos domingos, os famosos Cosplay. Os teenagers se encontram para serem iguais em sua tribo, mas completamente diferentes de todo o resto. Cabelos coloridos, fantasias de mangás e lentes púrpura ou azul. Eles se misturam e interagem nas milhares de lojas que pipocam dos dois lados da rua. Parecia que eu estava dentro de algum anime, desenho típico japonês.

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Um pouco mais afastada da estação de Harujuku, ficam as lojas mais conceituais. Nelas, os hipsters japoneses e imigrantes encontram abrigo. A variedade é grande, denin wear, alta costura, skate/street wear, lojas de chapéus, de vestidos, grifes famosas, newcomers, acessórios. Tudo muito caro, bem acabado e lindo. Nessas lojas, o resto dos japoneses abastecem seus guarda-roupas e comprovam sua fama de fashionistas. Haruna, nossa produtora japonesa, era uma delas. Com apenas 42 quilos e pouco mais de 1,50m, essa japonesinha sabe medir e escolher meticulosamente cada peça que adornava sua pequena constituição. Nada de roupas infantis. Com 32 anos, ela tinha que se vestir de forma elegante e fashion, ou passaria facilmente por uma menina de 12 anos. Ela era a antítese dos teenagers da rua Takeshita. Mas em sua necessidade de expressar a individualidade, tinha o mesmo espírito. Mais um prego solto na madeira.

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Encontramos Joana, a jornalista australiana de que falei antes, num lugar incrível chamado Deus Ex Machina. É uma loja que mistura surf e motociclismo. No primeiro andar fica um café delicioso. Sentamos Eu, Joana, Filipe Zappelini (diretor), Fabiano Rodrigues (fotografo) e lá conhecemos Storm, uma jornalista canadense descendentes de vietnamitas que estava morando em Tóquio. Aproveitamos o final de tarde do lado de fora da esquina onde ficava a loja, com uma cerveja local. Todos se deliciavam com o sol que já se escondia atrás dos prédios. Ninguém falava nada, apenas sorviam os raios de sol e aquele momento que não voltaria, aproveitando cada segundo como se fosse o último. Sim, todo segundo é único quando estamos presentes. Sem culpas passadas ou ansiedades futuras. Apenas o sol e a companhia de pessoas legais. Nada mais.

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Seguimos para uma festa escondida na porta de tras de um restaurante, ainda no Harujuku. Um lugar pequeno, espremido e muito bem decorado. No primeiro andar, uma DJ francesa tocava algo semelhante a Minimal Techno. No segundo andar, uma turma deitava no chão, em um tatame, escutando um DJ local. Aproveitei meu francês rudimentar para conversar com a menina DJ que acabara o seu set. Chloé era fluente em japonês e tinha um inglês tão perfeito que intimidava, com apenas 23 anos. Ela me prometeu me passar o set list que ela tocou já que nem com o aplicativo Shazan consegui descobrir quais eram as músicas. Meus sentidos estavam estimulados e aguçados, queria absorver tudo.

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A noite terminou já no outro dia pela manhã com uma tigela de ramen em um restaurante sujo de Shinjuku, rodeado por prostíbulos e outros estabelecimentos de tolerância. Minha cabeça vagava pelos rostos de todos aqueles que conheci naquele curto espaço de tempo. Olhei ao redor e brindei na minha imaginação um último gole de saquê em terras nipônicas. “Obrigado, imperador Meiji, por nos ensinar que nem todos os pregos devem ser martelados”.

Marco

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Marco Aurélio Bezerra é meu amigo, adora viajar, publicitário da DM9 Sul e já escreveu alguns posts para o blog!
Obrigada, querido!!!

Bjs

Clau