Quem é Rico e quem é Pobre?

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Meu primeiro dia na Jamaica prometia ser bem solitário. Soube que toda a equipe do projeto que acompanhava tinha perdido o vôo para Kingston. O fotógrafo não conseguiu embarcar porque não tinha a vacina para a febre amarela. Ele vinha pelo Panamá e lá é obrigatório. Já o resto da turma se perdeu em conexões que não permitiam muito atraso entre os vôos. Nada que preocupasse a produção, afinal o scouting de locações começava apenas no dia seguinte mesmo.

Em função disso, decidi que iria explorar algum lugar bem local. Nada de turismo óbvio. Por outro lado, também não queria gastar um dia lindo de sol nas vielas sujas Trench Town. Assim, a escolha óbvia era uma praia. Conversei com alguns taxistas e com o pessoal do hotel. Todos me falaram de uma praia bem popular entre o pessoal de Kingston. O nome dela era Boardwalk.

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Na minha cabeça, haveriam centenas de barraquinhas oferecendo comidas típicas e bebida em profusão. Provavelmente um calçadão atravessaria toda a orla. Minha ingenuidade não poderia ser maior. Foi o que descobri bem cedo.

Depois de percorrer um longo caminho de carro, por onde passei entre canaviais, favelas e vendedores de frutas na beira da estrada, cheguei ao meu destino. O motorista que me levou não havia falado, não sei se tinha medo de perder a corrida farta, mas a praia que eu acabara de chegar era particular e fechada. Entrada permitida apenas com o pagamento de um fee. Como era segunda, não tinha muita gente. E os serviços do estabelecimento que ficava na beira-mar estava fechado. O portão também não estava aberto.

Como saí cedo, não tomei café no hotel. Também não havia levado nada de comida e bebida. Essa foi a ingenuidade que comentei. Não haviam opções de consumo. Apenas o mar, algumas cadeiras rústicas de madeira e o pessoal que trabalhava na obra do bar mais próximo a praia.

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Já que estava lá, resolvi ficar. Gritei alto e um dos trabalhadores locais se aproximou. Ofereci para pagar a entrada. Ele negou. Com um sorriso no rosto me abriu o portão. Ele me disse que estava tudo fechado, mas que a praia poderia ser minha pelo tempo que eu quisesse. Era segunda-feira e depois de um final de semana de muito trabalho, todos descansavam.

Sentei em uma espreguiçadeira de madeira rústica. Abri uma toalha e sorri para dois rastafári que fumavam ganja a 5 metros de onde eu estava. Eles me esticaram o braço me oferecendo um pouco de sua erva cujo odor já impregnava o ar. “No thanks”. A fumaça deles não me incomodava. E mesmo que assim fosse, não teria coragem de mandar eles apagarem. Mais tarde descobri que não havia lugar na Jamaica onde pudesse me esconder daquele cheiro.

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Poucos minutos ali no sol e já podia escutar meu estômago reclamando da minha falta de noção em não ter comido nada. Como se minha mente pudesse ser lida, um dos trabalhadores da obra se aproximou de mim e me perguntou se eu estava com fome e sede. Ele me disse que estavam preparando o almoço da equipe e que, se eu não me importasse em comer curry, poderia sentar na mesa com eles mais tarde.

Ele também me contou que havia bebida na geladeira do bar, que estava trancada, mas que eles poderiam abrir para mim. Agradeci, sorri e estiquei meu corpo no sol para gastar o mínimo de energia. Além de recarregar minha cota de vitamina D.

Uma hora ali parado e já estava entediado. Escutava as gargalhadas dos trabalhadores felizes ali perto. No sol escaldante e na beira do paraíso, eles se dividiam na árdua tarefa de retirar uma pedra de uns 150 quilos da área do bar. Se eles estava rindo, talvez poderiam me alegrar também.

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Me aproximei do grupo e me apresentei. Peguei um refrigerante na geladeira, deixei o dinheiro no balcão e puxei conversa. Eles se alegravam com o meu sotaque, e ficaram ainda mais amistosos quando souberam que aquele branquelo era brasileiro. Ofereci ajuda com a pedra e eles negaram. Queriam apenas um pouco da companhia de um estrangeiro engraçado e adoravam me ensinar as minúcias do dialeto local. Uma mistura de inglês britânico com gramática ruim e algum dialeto afro.

Quando a comida ficou pronta sentamos todos em uma mesa de madeira. Me serviram um prato cheio de diferentes sabores. Como em um restaurante 3 estrelas Michelin, o cozinheiro me explicou o que era cada uma das coisas no meu pratinho de plástico. Me entregou um garfo e me convidou a comer primeiro. Todos me olhavam esperando alguma reação ruim a comida. Não sei se era a fome, mas aqueles sabores não deviam nada para o restaurante DOM do Alex Atala.

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Passei a tarde com aquele povo humilde. Perto do fim do dia, meu motorista veio me buscar. Já haviam se passado 8 horas que eu estava em meio aos nativos. Perguntei quanto e como poderia pagar. Eles me olharam, sorriram de novo, e me disseram que eu era convidado. Visitas não pagam nada. Seria rude. Meu coração se encheu de culpa ao imaginar que eles poderiam ter me cobrado até 100 dólares por aquela comida e tempo na praia. Eu pagaria feliz. Essa grana era provavelmente muito mais do que eles ganhavam em uma semana. Ofereci um abraço, eles também negaram. Me explicaram que os homens jamaicanos eram muito homofóbicos e me ensinaram mais um pouco dos costumes locais. Um cumprimento que apenas encostava os polegares e dava uma estraladinha.

Entrei no carro com um sorriso no rosto e com uma série de lições aprendidas. A mais profunda delas era sobre o significado de riqueza. Mesmo tendo tanto de material, fiquei com a certeza de que, em muitos aspectos, era muito mais pobre que os amigos que eu acabara de fazer.

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Marco

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Marco Aurélio Bezerra é meu amigo, adora viajar, publicitário da DM9 Sul e já escreveu alguns posts para o blog!
Obrigada, querido!!!

Bjs

Clau